Lugares da arquitectura
Antes de falar da fotografia de arquitectura propriamente dita, talvez seja interessante começar por procurar esclarecer a relação entre o lugar e a arquitectura.
A arquitectura surge como concretização de uma situação existencial específica e, na sua dimensão mais prática, deve ser encarada como parte integrante de um sistema mais vasto, em que o ambiente influencia os seres humanos e a sua essência transcende a definição do funcionalismo puro. É um facto universal que a nossa existência e presença no mundo é sempre marcada por fenómenos concretos, mas também por fenómenos mais intangíveis como as emoções. A este propósito, Le Corbusier defendia que o propósito da arquitectura é comover. Assim, assumindo a experiência significativa das situações existenciais como uma das necessidades fundamentais do homem, poderemos então concluir que o objectivo maior da fotografia do lugar deverá ser conservar e transmitir os significados associados aos lugares que representa.
Lugar, enquanto fenómeno total qualitativo, é o termo que define o ambiente e que é parte integral da existência, não podendo ser reduzido a nenhuma das suas características singulares sem perder de vista a sua natureza concreta. A experiência do quotidiano revela que acções distintas necessitam de ambientes distintos para que se possam realizar de modo satisfatório. Em consequência disto, a cidade revela-se numa multiplicidade de lugares particulares que não podem ser descritos através de meros conceitos analíticos ou científicos. Isto só vem dificultar o trabalho da fotografia no seu esforço de representação rigorosa e integral da realidade.

Carrer Blanquerna, Palma de Maiorca, 2010
Para adensar esta dificuldade, o mundo contemporâneo constitui uma realidade extensiva demasiado complexa e que para além de determinadas circunstâncias locais, adquire também uma identidade particular que dificilmente poderá ser plasmada numa única imagem. O ambiente construído pelo homem é, antes do mais, a transformação da natureza numa paisagem cultural, já que as suas intervenções se relacionam intimamente com o ambiente, funcionando como pontos focais nos quais o carácter ambiental se condensa e explicita.
Estes espaços existenciais, sempre dotados de um carácter distintivo, revelam-se território de relações fundamentais entre o homem e o ambiente. De acordo com Norberg-Schulz, este conceito de espaço existencial está subdividido nos termos complementares de espaço e carácter de acordo com as funções psicológicas de orientação e identificação. “Lugar existencial e habitar são sinónimos e, em sentido existencial, habitar é a essência da arquitectura. O homem habita quando se orienta num ambiente e se identifica com ele, ou simplesmente quando compreende o significado de um ambiente”(1).
Norberg-Schulz, recorre ao conceito de genius loci (2) (espírito do lugar) como a realidade concreta que o homem enfrenta na vida quotidiana. A arquitectura deverá, pois, pré-visualizar o genius loci e o grande objectivo do arquitecto será o de criar lugares significativos para ajudar o homem a habitar (3). A história diz-nos que, no passado, a vida dependia de uma relação sã com o lugar, no sentido físico e psíquico. Tomando como o exemplo o antigo Egipto, Norberg-Schulz relembra que “o campo era cultivado não só tendo em atenção as inundações do Nilo, como também a estrutura da paisagem agrícola era utilizada como modelo para a disposição dos edifícios públicos, como símbolo da ordem imutável do ambiente em que viviam”.
A grande complexidade das relações do espaço humano revê-se, genericamente, no termo habitar. Para melhor compreensão desta definição, é útil recorrer aos conceitos de espaço e carácter. Quando um homem habita, é simultaneamente localizado num espaço e exposto a um determinado carácter ambiental. As duas funções psicológicas implícitas no habitar podem ser denominadas orientação e identificação. Sem esquecer a importância da orientação, é importante sublinhar que habitar implica, também, uma identificação com o ambiente. Ainda que estes dois conceitos sejam aspectos complementares de uma clara relação complexa, possuem um certo grau de independência. No mundo contemporâneo, a atenção é quase exclusivamente concentrada nas funções práticas da orientação enquanto que a identificação é remetida para segundo plano. Assim, o habitar verdadeiro – em sentido psicológico – é substituído pela alienação. Identificação e orientação são os aspectos básicos da presença no mundo. Enquanto a identificação é a base do sentido de pertença a um lugar, a orientação é a função que faz com que o homem seja parte da sua natureza.
À fotografia compete o poder de identificar a captar a imagem do lugar, registando e eternizando cada momento escolhido e reproduzindo até ao infinito porções de território. Mas se por um lado, este tipo de registo tem a capacidade de catalogar e ordenar o espaço através de uma lógica de território, por outro lado, revela-se uma visão redutora e parcelar de um território muito mais vasto, impossível de ser completamente processado ou organizado na bidimensionalidade da imagem fotográfica. Para Pinto de Almeida (4), o mundo “é o incoleccionável. Ao arquivar aspectos do mundo em imagens, a fotografia dá-nos uma ideia da posse, uma aproximação à sensação de posse. Ou seja, uma imagem do que é a posse. Não possuímos o mundo: imaginamos a posse”.
(1) NORBERG-SCHULZ, Christian, Genius loci, Milão, Electa Editrice, 1979, p.5.
(2) O genius loci é um termo de concepção romana e, segundo uma antiga crença, todo o indivíduo tem o seu genius (espírito guardião). Este espírito dá vida às pessoas e aos lugares, acompanha do nascimento à morte e determina o seu carácter ou essência. O genius indica, antes do mais, que uma coisa quer existir.
(3) NORBERG-SCHULZ, Christian, Genius loci, Milão, Electa Editrice, 1979, p.5.
(4) PINTO DE ALMEIDA, Bernardo, Imagem da fotografia, Lisboa, Assírio & Alvim, 1995, p. 16.
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Um comentário em “Lugares da arquitectura”
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Miguel: O texto que escreveste revela relações bastante interessantes e importantes entre a Arquitectura e a Fotografia enquanto representação de uma realidade construída. Fico à espera dos próximos escritos e espero poder aprender algo mais sobre a matéria!
cumprimentos