Lugares da cidade
Ao longo das últimas décadas, a cidade contemporânea tem sido fotografada inúmeras vezes por quase todos os fotógrafos. O ponto de vista oscila sempre entre a afirmação exuberante e a objectividade de um trabalho de investigação pura. Para o fotógrafo, este gesto de fotografar a cidade implica sempre o reconhecimento do lento e paradoxal processo de humanização do espaço físico que o envolve. O fotógrafo deve ter em conta que as cidades são sempre momentaneamente contemporâneas (1) e que a cada instante corresponde determinada contemporaneidade, que tem os seus próprios conceitos e métodos de estruturação. Neste sentido, se para o arquitecto, projectar é sempre transformar, para o fotógrafo, a cidade deverá constituir sempre um pretexto para uma reflexão acerca deste processo de antropização.
A cidade tem também que ser entendida como um território de relações arquitectónicas, já que a própria configuração do espaço urbano tem sempre como matriz a construção do artificial. É também nesta artificialidade e nas suas relações que a fotografia se deve deter. Já não faz sentido continuar a debater o mosaico formado pelos tecidos urbanos, sem considerar aquilo que os liga ou fractura, nem valorizar as peças do puzzle que configura a cidade contemporânea sem perceber as estruturas que as suportam.
Actualmente, as imagens da cidade e as imagens do tempo estão tão inter-relacionadas que já não é possível falar de uma sem referir a outra. O tempo contemporâneo é um tempo marcadamente metropolitano e já não relacionado com o ritmo da natureza, mas antes com o ritmo da produção industrial e da comunicação. Na vida urbana, o tempo passa e repete-se e é esta repetição que define a condição e a essência da cidade contemporânea. A fotografia, que deverá tentar perceber este processo e condensá-lo nas suas imagens, encontra-se perante o desafio de serenar esta realidade até um ponto em que tudo faça sentido.
A cidade é, acima de tudo, paisagem em constante transformação. É processo e território. No fundo, revela-se a localização geográfica de um evento em transformação. Evento deve ser entendido, aqui, como humano, simbólico, psicológico ou imaginário, que pode ter acontecido, pode estar a acontecer ou pode nunca vir a acontecer, mas o seu território é sempre a cidade. Por outro lado, existem fotografias “da cidade” que, pelas suas características, transcendem a sua localização e se tornam um evento elas próprias, como as abordagens tipológicas dos Becher, as manipulações de Gursky, ou as visões dos New Topographics. Mais do que uma descrição literal, tudo depende da própria visão que o fotógrafo tem do sítio. Por outro lado, paradoxalmente, da mesma forma que todos nos movemos no mesmo “eixo” temporal, parece óbvio que todos estamos sujeitos a este processo de nos tornarmos outra coisa a qualquer momento.
Somos agora confrontados com a noção de que a cidade tem uma evolução e um ciclo de vida semelhante a qualquer outra paisagem. Partindo deste ponto de vista a distinção entre a fotografia da cidade e a fotografia da paisagem torna-se desnecessária. Cada uma destas não é mais do que um reflexo de forças físicas primárias (construtivas e destrutivas) e onde a actividade humana não é mais do que outra faceta das forças naturais. O mais importante é que a contemplação da cidade não é mais do que a contemplação de toda a actividade humana e a sua escala revela-se irrelevante. As fotografias da cidade são acerca das construções, estruturas e relações arquitectónicas, mas são também acerca das nossas paixões e indiferenças.
(1) Nuno GRANDE, O verdadeiro mapa do universo, Coimbra, Edições do Departamento de Arquitectura da FCTUC, 2002, p.19.
Lugares da arquitectura
Antes de falar da fotografia de arquitectura propriamente dita, talvez seja interessante começar por procurar esclarecer a relação entre o lugar e a arquitectura.
A arquitectura surge como concretização de uma situação existencial específica e, na sua dimensão mais prática, deve ser encarada como parte integrante de um sistema mais vasto, em que o ambiente influencia os seres humanos e a sua essência transcende a definição do funcionalismo puro. É um facto universal que a nossa existência e presença no mundo é sempre marcada por fenómenos concretos, mas também por fenómenos mais intangíveis como as emoções. A este propósito, Le Corbusier defendia que o propósito da arquitectura é comover. Assim, assumindo a experiência significativa das situações existenciais como uma das necessidades fundamentais do homem, poderemos então concluir que o objectivo maior da fotografia do lugar deverá ser conservar e transmitir os significados associados aos lugares que representa.
Lugar, enquanto fenómeno total qualitativo, é o termo que define o ambiente e que é parte integral da existência, não podendo ser reduzido a nenhuma das suas características singulares sem perder de vista a sua natureza concreta. A experiência do quotidiano revela que acções distintas necessitam de ambientes distintos para que se possam realizar de modo satisfatório. Em consequência disto, a cidade revela-se numa multiplicidade de lugares particulares que não podem ser descritos através de meros conceitos analíticos ou científicos. Isto só vem dificultar o trabalho da fotografia no seu esforço de representação rigorosa e integral da realidade.

Carrer Blanquerna, Palma de Maiorca, 2010
Para adensar esta dificuldade, o mundo contemporâneo constitui uma realidade extensiva demasiado complexa e que para além de determinadas circunstâncias locais, adquire também uma identidade particular que dificilmente poderá ser plasmada numa única imagem. O ambiente construído pelo homem é, antes do mais, a transformação da natureza numa paisagem cultural, já que as suas intervenções se relacionam intimamente com o ambiente, funcionando como pontos focais nos quais o carácter ambiental se condensa e explicita.
Estes espaços existenciais, sempre dotados de um carácter distintivo, revelam-se território de relações fundamentais entre o homem e o ambiente. De acordo com Norberg-Schulz, este conceito de espaço existencial está subdividido nos termos complementares de espaço e carácter de acordo com as funções psicológicas de orientação e identificação. “Lugar existencial e habitar são sinónimos e, em sentido existencial, habitar é a essência da arquitectura. O homem habita quando se orienta num ambiente e se identifica com ele, ou simplesmente quando compreende o significado de um ambiente”(1).
Norberg-Schulz, recorre ao conceito de genius loci (2) (espírito do lugar) como a realidade concreta que o homem enfrenta na vida quotidiana. A arquitectura deverá, pois, pré-visualizar o genius loci e o grande objectivo do arquitecto será o de criar lugares significativos para ajudar o homem a habitar (3). A história diz-nos que, no passado, a vida dependia de uma relação sã com o lugar, no sentido físico e psíquico. Tomando como o exemplo o antigo Egipto, Norberg-Schulz relembra que “o campo era cultivado não só tendo em atenção as inundações do Nilo, como também a estrutura da paisagem agrícola era utilizada como modelo para a disposição dos edifícios públicos, como símbolo da ordem imutável do ambiente em que viviam”.
A grande complexidade das relações do espaço humano revê-se, genericamente, no termo habitar. Para melhor compreensão desta definição, é útil recorrer aos conceitos de espaço e carácter. Quando um homem habita, é simultaneamente localizado num espaço e exposto a um determinado carácter ambiental. As duas funções psicológicas implícitas no habitar podem ser denominadas orientação e identificação. Sem esquecer a importância da orientação, é importante sublinhar que habitar implica, também, uma identificação com o ambiente. Ainda que estes dois conceitos sejam aspectos complementares de uma clara relação complexa, possuem um certo grau de independência. No mundo contemporâneo, a atenção é quase exclusivamente concentrada nas funções práticas da orientação enquanto que a identificação é remetida para segundo plano. Assim, o habitar verdadeiro – em sentido psicológico – é substituído pela alienação. Identificação e orientação são os aspectos básicos da presença no mundo. Enquanto a identificação é a base do sentido de pertença a um lugar, a orientação é a função que faz com que o homem seja parte da sua natureza.
À fotografia compete o poder de identificar a captar a imagem do lugar, registando e eternizando cada momento escolhido e reproduzindo até ao infinito porções de território. Mas se por um lado, este tipo de registo tem a capacidade de catalogar e ordenar o espaço através de uma lógica de território, por outro lado, revela-se uma visão redutora e parcelar de um território muito mais vasto, impossível de ser completamente processado ou organizado na bidimensionalidade da imagem fotográfica. Para Pinto de Almeida (4), o mundo “é o incoleccionável. Ao arquivar aspectos do mundo em imagens, a fotografia dá-nos uma ideia da posse, uma aproximação à sensação de posse. Ou seja, uma imagem do que é a posse. Não possuímos o mundo: imaginamos a posse”.
(1) NORBERG-SCHULZ, Christian, Genius loci, Milão, Electa Editrice, 1979, p.5.
(2) O genius loci é um termo de concepção romana e, segundo uma antiga crença, todo o indivíduo tem o seu genius (espírito guardião). Este espírito dá vida às pessoas e aos lugares, acompanha do nascimento à morte e determina o seu carácter ou essência. O genius indica, antes do mais, que uma coisa quer existir.
(3) NORBERG-SCHULZ, Christian, Genius loci, Milão, Electa Editrice, 1979, p.5.
(4) PINTO DE ALMEIDA, Bernardo, Imagem da fotografia, Lisboa, Assírio & Alvim, 1995, p. 16.




