O (re)começo

Hoje reinicio neste novo endereço, “o diário de um fotógrafo de arquitectura“. Mais do que um relato do quotidiano, este blogue será, acima de tudo, um modesto espaço de reflexão pessoal sobre as questões ligadas à fotografia de arquitectura.

Ao longo dos últimos seis anos, ouço inúmeras vezes as mesmas questões recorrentes:
Como é que um arquitecto se torna fotógrafo?”
… mas chegou a acabar o curso?
“... o mercado está difícil em Portugal, não é?
“…”

Embora todas estas questões sejam importantes (e configurem um flagrante preconceito!), vamos centrar-nos na primeira (e registar a resposta afirmativa às restantes).

Se excluirmos os fotógrafos casuais, eu duvido que exista alguém que fotografe durante muito tempo e que durante todo este período nunca tenho tido o sonho/desejo de fazer da fotografia profissão. O “encanto” e o “espanto” foram sempre duas condições que acompanharam a Fotografia e, como é sabido, tornam-se altamente viciantes.

No meu caso, este foi um desejo que me acompanhou desde os onze anos de idade. Nos primeiros 4 ou 5 anos, tive a felicidade de poder frequentar inúmeros cursos e workshops, mas com a aproximação do final do ensino secundário surgiram as primeiras dúvidas. Na altura, o ensino superior em fotografia em Portugal resumia-se a dois cursos recém-criados. A única alternativa eram os cursos no estrangeiro que à data, feliz ou infelizmente, não tive a coragem de tentar.

Para quem cresceu sempre perto do mundo das artes visuais, o caminho que restava (no meu caso) era o do ensino artístico ou o da arquitectura. Foi assim de forma mais ou menos natural que escolhi a arquitectura, embora sem nunca deixar de fotografar. O curso, de seis anos e muita carga horária, não deixava muito tempo livre e 90% das fotografias que fazia nesta altura eram, naturalmente, de arquitectura. Por outro lado, ao longo do curso, pensava inúmeras vezes no facto do estudo da arquitectura ser feito, na maioria das vezes, através de fotografias e, conhecendo bem a capacidade da fotografia de criar ficções, reflectia sobre a veracidade destas imagens. Mas mesmo nesta altura, não imaginava que estaria aqui a solução para o meu problema.

Só uns anos mais tarde, durante um mestrado em Belas-Artes e quando retomei com mais força a minha actividade fotográfica, descobri este ponto de contacto entre a fotografia e a arquitectura. Neste curso tive a felicidade de conhecer Manolo Laguillo (catedrático de fotografia e fotógrafo de arquitectura) que me “mostrou” o caminho. O resto da história é simples: em poucos dias, alterei o objecto de estudo da minha investigação e centrei-me na fotografia de arquitectura.

Paralelamente, surgiram as primeiras encomendas e as tentativas para a descoberta de uma nova forma de ver e dar a ver a arquitectura.

Ao longos destes (poucos) anos de trabalho tive já a sorte de poder conhecer e partilhar momentos inesquecíveis com alguns dos mais importantes profissionais desta área (José Manuel Rodrigues, Fernando Guerra, Carlos Casariego, Héctor Santos-Díez, Duccio Malagamba) e espero agora aqui poder partilhar a minha visão sobre a fotografia de arquitectura…